Devir Prometeico
Prosema
Em tudo aquilo que exala poder e força, o último discípulo do filósofo Dionísio jamais se associaria àquilo que é krátos, kraft — ao que é duro, ao que é punho cerrado sobre o mundo. Nos lembrando do valor da inocência do vir a ser (The Innocence of Becoming; Unschuld des Werdens), ele também estimava a sagacidade: seu heroico fatalismo não sugere uma aceitação passiva de eventos negativos — como a do soldado romano salvaguardando seu posto (Faithful unto Death, Edward Poynter) —; antes, redireciona-se à coragem e altivez de quem dança com o destino: inclusive, roubando uma chama de sua crueldade, e ainda distribuindo aos mortais.
Em Prometeu nós temos, com assaz certeza, a figura do Übermensch: alguém que supera o homem, supera os deuses (incluindo o rei deles), e traz grande benfeitoria à humanidade: existindo a partir de si (Bejahung), não resvalando na ausência-de-si — este princípio da décadence, como Nietzsche insiste nO Caso Wagner —, à humanidade anuncia a partir de sua individual vitalidade: as artes, as ciências — o que é Dionisíaco (da ordem do esplêndido: como o espírito de beleza artística na fatalidade) e o que é Apolíneo (o seguro compasso do que é racional: como a rejeição da crueldade e do autoritarismo). Ele nos rememora: onde findam os grilhões do poder (Krátos) e a violência (Bía), inicia-se a astúcia (µῆτις) — filha das célebres Oceanides — que rouba o fogo rubro dos deuses.
Mas, para quem não sente em sua própria carne todo este sofrimento, é fácil ponderar e censurar. Eu esperava tudo isto; foi consciente, consciente sim, meu erro — não retiro a palavra. Por amor aos homens, por querer ajudá-los, procurei, eu mesmo, meus próprios males.— Prometeu Acorrentado, Ésquilo (tradução: Mário da Gama Kury)
Com o heróico fatalismo de quem luta pela liberdade e na carne sente tudo aquilo que inflama os nervos de uma verve vertical — Prometeu possui atitude nobre, ao passo que também se situa para além do bem e do mal. É notório seu caráter de nômade, ao dizer até mesmo (brevemente) que odeia os deuses, mostrando uma intempestividade que somente um texto onde todo o escopo de afetos humanos são vividos poderia sinceramente afirmar. Naquele texto sagrado em Grego Koiné: certo portador da Aurora sempre é vilãnizado… e sequer auscultado (não há paixão, não há emoção, não há complexidade: não há vida). Constata-se: que ele cai como relâmpago. Em Ésquilo: o transgressor sofre por um relâmpago.
‘‘Mas caiu sobre ele o dardo sempre alerta do senhor dos deuses, que apenas ele atira num sopro de fogo. Do alto de sua jactância insolente Zeus derrubou-o; atingido mortalmente em pleno coração, ele viu sua força ser reduzida a nada por um raio ígneo’’
— Evidentemente, Prometeu não é simplesmente um rebelde contra Zeus (ou contra os deuses): mas nota algo que ele não notou (e que seus aliados não notaram), devido à explosão de seus estados-de-ânimo. Isto é: um poder que não se expressa pela autoridade e pelo punho, mas pela suave astúcia e sagaz velocidade. E como o arco apontado para a cima que, crescendo em intensidade, revolve em menor ritmo o declive da flecha, um mito se repete na história — as mesmas queixas de Zeus, que levam Prometeu ao tormento: cerram o homem no dogma, na mentalidade autoritária, na alienação (e ausência) de si em prol dum conceito, dum Espírito, duma crença, duma submissão.
Em tudo que é aprisionamento hodiernamente, revivido à maneira do tempo do mito (tempus originarium), nós chamamos, senhores: recorrência de um evento.
Não somente como ameaça de eterna pena (exemplificada no espólio grego do termo Hades), epíloga da justificação de um medo notoriamente farsante — mas também como pensamento estrutural: os mitos se repetem na história, na submissão acrítica à toda moral genealógia adscrita.
“Não pretendemos, portanto, mostrar como os homens pensam nos mitos, mas como os mitos se pensam nos homens, e à sua revelia. E talvez convenha ir ainda mais longe, como sugerimos, abstraindo todo o sujeito para considerar que, de um certo modo, os mitos se pensam entre si”.
LÉVI-STRAUSS (2004). “O cru e o cozido: Mitológicas 1”. (p. 31)
Eles declinam o dever vertical; mas nós, espíritos livres, muito livres — nós, os discípulos do último discípulo do filósofo Dionísio, e também díscipulos de Prometeu—, portamos o fogo que queima as tábuas proscritas.
‘‘Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores, o quebrador, o infrator: — mas este é o criador’’ (Assim falou Zaratustra, Prefácio 9)
Seríamos nós astutos do devir, inclusive não temendo mais a pena? Como Prometeu, aliado de Herácles, sabendo que seu sofrimento findaria — que nada mais ele teria a temer (enquanto o mais essencial ocultaria)?
Ah! Nós, espíritos livres, andarilhos de nossas próprias sombras — sabemos quão somos como O Mais Solitário; por isso, não confundamos a vontade de potência com espírito de brutalidade e força. Muito menos poder sobre o outro; em contrapartida, felicitaria-nos a genialidade Heideggeriana: vontade de poder como arte, como um poder-ser-mais-próprio do Dasein, o movimento do jogo que se coloca de fronte ao meu aí-ser.
E se em cada grito de liberdade, em cada insubmissão que nos enredamos, caso lançem-se a nós pedras rochosas e correntes de ferro, por quem se porta como rei dos deuses na autoridade — tenhamos a serenidade e a força interior de, com um grande sim, suportarmos como o herói trágico que, mesmo nos grilhões, contempla o manto das estrelas e o sol evaporando na aurora.
O prometeico também possui seus aliados: Prometeu era companheiro da piedade de Hefesto, avizinhado pelo eterno-feminino, na lonjura das Oceânides repousava. Elas cantam um coro trágico, possuem a suavidade de Gaia — dentre muitas Heras...
Que o orvalho gélido de qualquer montanha nos seja antessala da liberdade; que o jogo do devir nos confira aquele poder das Oceânides, e não o poder da força bruta; que nossos caminhos de aurora nos conduzam a montanhas mágicas.
‘‘Poder, dirigindo-se a Prometeu
És tua recompensa por haver querido agir como se fosses benfeitor dos homens. Deus descuidoso do rancor dos outros deuses, quiseste transgredir um direito sagrado dando aos mortais as prerrogativas divinas.
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Corifeu
Foste mais longe ainda em tuas transgressões?
Prometeu
Fui, sim, livrando os homens do medo da morte.
Non serviam, paulvs, 25/04/26.



